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domingo, 19 de maio de 2019

Narcisismo na contemporaneidade

Narcisismo na Contemporaneidade: Caracterização e Desafios da Prática Clínica

Narcisismo na Contemporaneidade: Caracterização e Desafios da Prática Clínica
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O presente artigo visa contemplar as noções sobre o narcisismo para além da ideia corriqueira, buscando a compreensão no âmbito da Psicologia Clínica, sobretudo, sob o olhar psicanalítico. Discorre-se sobre as características das pessoas que apresentam este tipo de personalidade, o narcisismo como etapa evolutiva, quando passa a se constituir em um quadro psicopatológico e a prática clínica ilustrada com vinhetas clínicas. 
Palavras-chave: Narcisismo, PsicologiaClínica, Psicanálise, Contemporaneidade.
O termo Narcisismo remete ao mito de Narciso, que se apaixonou pela própria imagem. A pessoa com características narcisistas é percebida como um suposto adorador de si mesmo, apresentando elevada autoestima e idealização de si mesmo (Roudinesco, 1999 e Figueredo, 2003).
Porém, os narcisistas, conforme Lasch (1987) se caracterizam pela superficialidade emocional, medo da intimidade, hipocondria, pseudo autopercepção, promiscuidade sexual, horror à velhice e à morte. Além disso, para o mesmo autor são descrentes quanto à possibilidade de transformar o futuro, desprezam o passado e vivem para o momento, perdendo o sentido da continuidade histórica.
O que inspira a preocupação constante com a própria pessoa é a ausência de um estável amor interior por si mesmo, obrigando-a a usar os outros para confirmá-lo. Assim preocupações como, “devo ser importante”, apontam que algo está errado com o seu amor por si mesmo, vive dominado pela ansiedade, pela dependência, pela necessidade de aprovação pelo outro. Diante das inevitáveis frustrações que essa dinâmica lhe custa, não tem sido raro deparar-se com pessoas com tais características dentro de uma prática clínica em que pode ser encontrado por meio de queixas como: exigência com o corpo e a estética, vazio interior e depressão.
Assim, concorda-se com o pensamento de Zimerman (1999) em que afirma que as pessoas que sofrem de vazios, tem uma ausência de reconhecimento de suas emoções, em realidade, elas estão cheias de buracos negros, resultantes de uma rígida carapaça, uma “concha autística”, que se forma contra a ameaça de um sofrimento provindo de frustrações impostas pela realidade exterior.
Discorrer sobre o narcisismo é, sem dúvida alguma, um grande desafio por ser um dos temas mais relevantes dentro da psicopatologia atual. O conceito de narcisismo passou por uma evolução de diferentes enfoques dentro da teoria psicanalítica e contou com a contribuição de diversos autores. 
De maneira geral, quando se faz menção ao narcisismo, logo se vem à mente um espectro de significados, mas destacam-se palavras ligadas à perfeição, vaidade, autossuficiência, superioridade, egoísmo entre outros. Tal a importância do conceito que, conforme apontado por Zimerman (1999) e Figueiredo (2003), apreende-se que tanto o narcisismo quanto o investimento objetal mostram-se fundamentais para a formação do sujeito, uma vez que são os investimentos narcísicos, oriundos dos cuidados maternos, que confirmarão ou não à criança o seu lugar como objeto de amor, estando, portanto, na base do que conhecemos por autoestima.
Faz-se necessário, esclarecer que existe uma diferenciação entre a etapa evolutiva normal vivida por todo ser humano, que conferem ao homem características sadias, que estão relacionadas com a formação da autoestima, de um quadro de narcisismo patológico ou transtorno narcisista, que confere acarreta ao indivíduo uma carga de sofrimento emocional. Para Macckinon, Michels e Buckley (2008) o narcisismo organiza a personalidade desde o saudável até o patológico, sendo que sua face saudável é fundamental para manter a convicção de que a pessoa é valiosa e que aceita aplausos e recompensas por suas conquistas e realizações, ao mesmo tempo em que compartilha e aceita o papel das outras pessoas neste sucesso.
Associado a isso, já quando há algum tipo de transtorno narcísico, corrobora-se as ideias de Roudinesco (1999) na qual sugere que o sofrimento psíquico manifesta-se sob a forma de depressão, em que se misturam a tristeza, a apatia, a busca da identidade e o culto a si mesmo. A este respeito, concorda-se com Berlinck (2008) em que se acredita que a depressão se tornou um fenômeno frequente no mundo moderno a ponto de ser considerada como uma reação natural deste tempo.
De acordo com os autores Roudinesco (1999) e Wanderley (1999) as condições sociais predominantes da atualidade tendem a desenvolver traços narcisistas, em vários graus, em todos. Estas condições recursivamente moldaram as famílias, que por sua vez, são a matriz de identidade do homem moldando, assim, uma sociedade narcisista, depressiva, apática e vazia.
A este respeito, concorda-se com Figueiredo (2003) quando este aponta para os fenômenos sociais e psíquicos que se está experimentando no século XXI: “A ameaça de destruição da humanidade cedeu lugar a uma cultura do individualismo esquizóide, na qual, entre mortos e feridos, todos nos salvamos, cada um na sua e nada entre nós” (p. 52-53). Com isso, evidencia-se o inegável sofrimento subjacente destas pessoas que apresentam alta insatisfação, uma enorme inveja do sucesso dos outros e um grande vazio interno. 
Nesse sentido, Wanderley (1999) assinala que o homem narcísico se diz tolerante, permissivo e liberado, mas em contrapartida diante de tanta liberdade, na busca incessante do prazer, sente-se vazio. Além disso, nesta perspectiva esse sujeito torna-se e indiferente a tudo e a todos que não lhe dizem respeito diretamente.
Não obstante, suas ocasionais ilusões de onipotência, o narcisista depende dos outros para validar sua autoestima. Ele não consegue viver sem uma audiência que o admire, mesmo com sua aparente liberdade dos laços familiares e dos constrangimentos. Essa inclinação para o mundo externo não o impede de ficar só consigo mesmo ou até mesmo de se exaltar em sua individualidade. Pelo contrário, ela contribui para sua insegurança, que ele somente pode superar quando vê seu “eu grandioso” refletido nas ações e nas atenções das outras pessoas, ou se ligar àqueles que irradiam sua celebridade, poder e carisma. “Para o narcisista, o mundo é um espelho, ao passo que o individualista áspero o via com o um deserto vazio, a ser modelado segundo seus próprios desígnios” (Lasch 1983 p. 30 citado por Wanderley 1999).
De fato, a lógica narcisista baseia-se na busca de um ideal. O uso do mecanismo da idealização de si mesmo e do outro, justifica-se pela necessidade constante da fuga da realidade interna, qual seja, a depressão. Para Mackinon et al (2008), essa categoria psicopatológica surgiu com o esforço dos psicoterapeutas em compreender esse grupo de pacientes considerados difíceis, uma vez que não eram considerados psicóticos e nem enquadravam-se na perspectiva neurótica. Estes pacientes são frequentemente vistos pelo mundo com uma alta capacidade funcional e sem psicopatologia óbvia, já que suas questões, na maioria das vezes, são internas e relacionadas com a forma de enxergarem a si mesmo e aos outros.
Além disso, não é possível falar em narcisismo sem trazer para esta reflexão os conceitos de narcisismo primário e secundário, propostos por Freud.  Em “Sobre o narcisismo: uma introdução” (1914), Freud concebeu a ideia de que o sujeito toma seu próprio corpo como sendo ao mesmo tempo fonte e objeto da libido sexual. Assim, o narcisismo primário é uma etapa evolutiva que ocorre após a etapa do autoerotismo, e baseia-se no investimento que objetos externos fazem ao bebe, porém ainda não há uma diferenciação entre eles.
De acordo com Mackinon et al (2008) enquanto patologia narcisista existe um continuum desde a forma branda até as mais graves. O paciente narcisista mais comprometido apresenta uma oscilação entre dois estados do sentimento: grandiosidade e um senso de insignificância. Destaca-se a grande contradição nestes pacientes se por um lado precisam do outro como fonte de gratificação e admiração constantes, por outro lado, evitam qualquer intimidade e interesse na relação.
A este respeito, recorre-se ao conceito de posição narcisista, proposto por Zimerman (1999) que auxilia na compreensão da construção de uma configuração narcisista que cada sujeito vivencia, e que depois toma seus contornos e singularidades próprias, de acordo com a constituição do sujeito e da interação deste com o ambiente.  Esta posição narcisista pela qual todos passam, refere-se ao momento do desenvolvimento no qual ainda não se estabeleceu a diferenciação entre o eu e o outro. 
De acordo com Zimerman (1999), a posição narcisista, é um estado necessário do desenvolvimento psíquico, formado por diversos fatores psíquicos (tais como defesas, angustias entre outros), vivenciada logo no início da vida, que terá repercussões na construção da sua personalidade até a vida adulta. Esta posição e marcada por uma total indiferenciação do bebê em relação a mãe. Todo bebê passa por uma fase de simbiose com a mãe em que ele “imagina” que a sua genitora é uma extensão dele, ou seja, para o bebê ele e a mãe estão fundidos. Durante esta fase de indiferenciação o infante pode formar uma ilusão onipotente de uma independência absoluta, já que tudo o que ele necessita e deseja, encontra-se nesta relação simbiótica.
No entanto, no decorrer do desenvolvimento o contato com realidade vai rompendo com essa onipotência e evidenciando que o que existe, na verdade, é um estado de absoluta dependência. Por isso, a separação da mãe, por meio da entrada de um terceiro na relação mãe-bebê torna-se fundamental para o estabelecimento de frustrações necessárias em direção ao reconhecimento e aceitação da incompletude e falta. Se o bebê não passa por este processo, ou seja, se ele permanece na ilusão da independência e completude, ele poderá ter dificuldades em suportar a realidade. Neste sentido, ele pode estar constantemente buscando aquela satisfação perdida, quais sejam, sentir-se poderoso e indispensável.
Para o sujeito narcisista, reconhecer que necessita de outros, demanda sofrimento. O sujeito pode então recorrer a mecanismos de defesa como negação e onipotência para fugir dessa realidade, para não ver ruir sua autoestima e sentimento de identidade. De modo geral, o sujeito passa pela vida tentando fugir do que Zimerman (1999) chama de verdades penosas, quais sejam: reconhecer que não é o único importante, que sofre dependência, perdas e separações. Esta necessidade poderá ser ampliada para tudo o revele um limite, como a morte, o envelhecimento e tantos “Nãos” que receberá ao longo da vida.
Associado a isto, elucida-se a dificuldade destes sujeitos em reconhecer seus limites: envelhecimento, morte, perda.  A este respeito cita-se como exemplo: Paciente J, 25 anos, ao agendar uma sessão para a terapeuta pediu a mesma um horário que já tinha outra pessoa marcada. Indignado o referido paciente solicitou que a profissional desmarcasse com o outro cliente para que fosse atendido. Este relato evidencia a dificuldade do mesmo em lidar com limite, não ser o único importante para a terapeuta e sentir-se desprivilegiado.
Nos transtornos narcisistas, evidencia-se um lado regressivo, por meio de características com baixa tolerância a frustração, uso de negações, inveja entre outros. Assim, é possível que o sujeito transforme sua insegurança e dependência em autossuficiência e onipotência. Neste sentido, evidencia-se o que Zimerman (1999) chama de núcleo de simbiose e ambiguidade.
 Na relação com psicoterapeuta estes pacientes fazem uso de demasiada identificação projetiva, ou seja, uma forma de comunicação inconsciente em que aspectos do próprio sujeito são negados e atribuídos ao psicoterapeuta. Nesse sentido, pode-se apontar para a vinheta clínica do caso clínico da jovem, 21 anos, recém graduada e que não passou em um processo seletivo para uma vaga de emprego na qual sentia que tinha todas as condições para assumir: 
eu não acredito que não passei, era o emprego dos meus sonhos e sempre me dediquei para isto. Acho que você já sabia que eu não iria passar. Acho que agora vou fazer outra faculdade e virar estagiária.
Complementando que já foi apontado até aqui é possível conhecer que podem ser delineadas outras características desta personalidade narcisista, tais como: possuir a tendência a generalizar alguma deficiência para a totalidade de sua pessoa.  
Assim, pode funcionar em extremos, ou é o melhor, ou é o pior. As falhas e fracassos são sentidas como insucesso na totalidade de sua estrutura e sobre essa característica, aponta-se para o relato de um paciente, caso A, após um tempo de processo terapêutico:
eu acho que tive um insigth (pausa), eu visualizei um monstrinho correndo, fugindo de mim, daí eu cheguei devagarinho, e cuidei dele, fiz carinho e ele se acalmou...eu penso que não preciso mais lutar contra coisas que eu criticava em mim, sou vaidoso, ambicioso, quero ser mais, melhor...talvez se eu souber dosar pode ser bom...porque se eu ficar acreditando que tudo é ruim não vou a lugar nenhum.”
No processo terapêutico torna-se importante ajudar o paciente a integrar o seu self, superando essa lógica dualista de ser ou bom ou mal. Frisa-se, ainda, a auto exigência como uma outra característica comum entre os narcisistas. A fim de satisfazer um ideal de ego e ego ideal severos, a autoestima sofre uma espécie de pressão, ficando vulnerável. O ego ideal se constitui das ambições pessoais enquanto o ideal de ego representa a necessidade do sujeito em cumprir as expectativas e ideais dos pais e da sociedade.
A esse respeito, quando a autoestima do sujeito depende quase que exclusivamente do cumprimento da obrigação de corresponder às expectativas de si próprio ou de seus pais ou representantes, isto produz, inexoravelmente, sofrimento psíquico. Além disso, tal qual apontado por Lasch (1987) há uma profunda indiferença para com tudo que não seja interesse do próprio individuo, pois, o narciso da época atual é exigente e tirânico em relação a tudo e a todos que podem opor-se à satisfação dos seus desejos imediatos. Assim, uma configuração narcisista necessita satisfazer-se com o constante reconhecimento alheio que se torna uma espécie “alimento”. A busca incessante por riqueza, poder, inteligência, beleza entre outros, servem para as pessoas confirmarem seu valor.
Bleichmar (1983), utilizou o termo depressão narcísica para designar o quadro clínico em que, frustrações pequenas são sentidas como desamparo, humilhação e aniquilamento, por não atender as exigências do ideal de ego e ego ideal. Outra consequência da tentativa de super adaptação em relação as demandas do ego é a construção de um “falso self”, em que o sujeito afasta-se de seu verdadeiro eu, para ser aquilo eu crê que seja idealizado e desejado pelos outros e por ele mesmo. Esse “falso self” esgota facilmente o ego porque o sentimento de insatisfação é continuo, e obriga o sujeito a ultrapassar até mesmo seus limites.
De acordo com Zimerman (1999), na construção da personalidade narcisista, geralmente existem falhas ocorridas no processo de identificação com as figuras parentais, que pode ocorrer pela apreensão do discurso parental ou imitação ou degeneração do modelo introjetado. De qualquer forma, é na relação com as figuras importantes que a criança vai percebendo as necessidades e expectativas do meio e vai moldando sua personalidade, podendo até mesmo distanciar-se de seu eu verdadeiro. Zimerman (1999) utiliza o termo personalidade “camaleônica” para designar as pessoas que se adaptam conforme o ambiente, valorizando mais as demandas externas do ambiente que suas próprias ideias e desejos. No caso A, citado anteriormente, o paciente costumava-se sentir vulnerável e influenciável:
Sou um Maria vai com as outras, o outro é que é referência, se estou próximo de um gigante, poderoso, bem-sucedido, quero ser como ele, quando estou com um cara simples, que não se importa com isso, eu também quero ser como ele. Além disso, sinto que falo o que as pessoas gostariam de ouvir, sei agradar, fico preocupado se causei uma boa impressão, fico com medo dos erros aparecerem”.
Para que isto ocorra, é natural que falhas precoces sofridas pelo sujeito nos primeiros anos de vida, tenham prejudicado o desenvolvimento saudável de sua autoestima. Assim, a personalidade narcisista, frágil em sua confiança básica e segurança básica, passa a utilizar com frequência um jogo e comparações, para reafirmar ou descartar seu valor. Para a paciente M, 43 anos, caso B, a família dos outros sempre era melhor que a sua e desta forma passava a inferiorizar-se: 
Eu praticamente não tenho família e me contentar que a minha família não me ajuda, se eu tivesse a família igual à da fulana, tudo seria diferente, tudo dá errado para mim por causa desta família, mas se eu tivesse uma família com dinheiro como a dela, eu ainda seria melhor que ela. Acho que até fazer dieta seria mais fácil.
Para o psicanalista Zimerman (1999), Narciso e Édipo estão inter-relacionados, muitas vezes, um torna-se o refúgio para o outro. Nem sempre uma regressão narcisista resulta numa fuga do Complexo de Édipo, mas sim numa nova tentativa de fazer um começo diferente, com uma base de autoestima suficiente para superar o complexo de édipo e seguir de forma mais madura e saudável. Com tudo o que foi exposto, podemos delinear a matriz, as principais defesas e a psicodinâmica desta estrutura. Para Rosenfeld (1987) o narcisismo pode ser também classificado em dois tipos:
  1. Narcisista de “pele fina” que são aqueles que são supersensíveis, melindráveis, com uma extrema vulnerabilidade na autoestima, que se colocam num papel de vítima, para de alguma forma, assegurar o poder. Este tipo de narcisista reage com dor a tudo que parece rejeição, sensação de inferioridade e utilizam-se da ameaça suicida como uma forma de controle. Também é comum o sujeito “pele fina’ a oscilação entre estados emocionais e exige um trato especial do psicoterapeuta.
  2. Narcisista “pele grossa”. Este tipo apresenta-se de forma mais arrogantes, prepotentes, com uma atitude defensiva e agressiva, intimidadores, insensíveis aos aspectos de dependência. Aparentam superioridade, quando na realidade, apresentam um self destrutivo.  Estas pessoas funcionam a partir da “tríade maníaca”: atitude de controle, triunfo e desprezo. Na realidade essas características encobrem, dissimulam e protegem uma subjacente pele finaPara evitar as dores das velhas e precoces feridas narcísicas, constroem uma espessa cicatriz de pele grossa. O narcisismo de pele grossa, aproveita seus conflitos como uma força para ir atrás das coisas que deseja, sua ferida é o seu “combustível”. 
No caso do paciente A, podemos considerar seu narcisismo do tipo pele grossa, pois apesar de sua insegurança, baixa autoestima e medos de rejeição, abandono entre outros, ele transformava sua vulnerabilidade em força para lutar, superar, crescer, e ir em busca de seus sonhos e ideais. Apesar de suas feridas e conflitos, sentia-se um “guerreiro” e “não entregava os pontos” (palavras do paciente). Quando encontrava uma dificuldade transformava em desafio e buscava força para superar.  Já os narcisistas de pele fina adotam uma postura de desistência na vida. Como exemplo de uma estrutura tipo pele fina, citaremos trecho da sessão da paciente S, 21anos, em sua terceira faculdade (não concluída):
Quando eu piso nos corredores desta instituição de ensino sinto minhas pernas me puxando para fora. É como se elas me dissessem que não vou dar conta mais uma vez, aí eu prefiro nem ir mais e desistir”.
De acordo com Zimerman (1999), os pacientes que possuem muitas características da posição narcisista que pertencem ao que se chama “pacientes de difícil acesso”, que por sua vez, evidenciam a necessidade um manejo técnico cuidadoso e especial. Torna-se importante a análise dos aspectos narcisistas, em termos de grau (moderado ou intenso), e natureza (sadia ou patológica). Compreender o perfil do paciente narcisista: a base da estruturação do paciente narcisista encontra-se na forma como se desenvolveu o apego da criança com sua mãe. Situações de precoce fracasso ambiental, como privações maternas, possessividade narcisista da mãe em relação ao filho, falhas na empatia, falhas da capacidade de frustrar a criança adequadamente, depressão materna no momento primordial do investimento do olhar e amor da mãe para com o bebê, entre outros. Tais aspectos dificultam a construção do apego saudável e trazem consequências negativas para a autoestima da criança que apresenta como resultante disso tudo, um prejuízo na construção da confiança básica, da constância objetal, da passagem da indiferenciação para a de separação e individuação e da internalização de objetos bons, com largos “vazios” no espaço psíquico (Zimerman, 2004).
As situações que remetem a alguma forma de desamparo, constituem-se na chamada ferida narcísica que representam a vivência da dor precoce. Na tentativa de esconder a necessidade de dependência e cuidado, o medo das humilhações e abandono, o paciente narcisista, como salientado anteriormente, procura controlar as situações, usando todos os recursos que desenvolveu por compensação, tais como:  os atributos de beleza, poder, status, e inúmeras outras capacidades valorizadas por nossa cultura. Porém, permanece sob tensão, pois vive em luta constante para não sucumbir a depressão anaclítica, que remete ao primitivo desamparo e falta da figura materna. A principal angústia da estruturação narcisista que é a denominada de desamparo, que leva a ansiedade de aniquilamento e abandono.
Para o paciente narcisista conectar-se com a realidade interna é algo extremamente penoso, pois reconhecer as suas limitações e aceitação da realidade, pode se constituir uma ameaça ao seu ego frágil. Estes pacientes possuem ainda, um baixo limiar de tolerância a frustrações vindas do psicoterapeuta, pois teme decepcionar o mesmo e, assim, ser abandonado como foi percebido outrora na sua relação com a mãe.
No processo terapêutico destes pacientes, por meio do setting e do reconhecimento da relação transferencial – contratransferencial, que o terapeuta ajuda o paciente a distinguir as frustrações necessárias das desnecessárias e inadequadas. O terapeuta precisa, então, deixar bem claro o enquadre deste processo, pois é muito comum que o paciente narcisista tente desvirtuar o setting instituído e fazer com que o terapeuta quebre algumas regras técnicas. O paciente tenta fazer essa transgressão, pois ele precisa sentir que é diferente dos outros pacientes, ele quer sentir-se mais especial que os outros, pois isto seria uma prova do amor do terapeuta. Utiliza para isso, sedução, chantagem e desafios para tirar o terapeuta do seu papel e sentir assim mais igual e menos dependente. Pode-se citar novamente o caso do paciente A que, no primeiro contato telefônico deixou claro que por ter uma profissão reconhecida socialmente e que o tornava muito ocupado, esperava que a terapeuta conseguisse um horário especial para ele, que a terapeuta precisaria se esforçar para encaixar sua sessão. Assim ele se apresenta e se coloca nas relações, esperando ser tratado com privilégios, para confirmar seu frágil sentimento de superioridade.
Assim, consideramos importante enfatizar a necessidade da preservação da assimetria da relação terapêutica, uma vez que para o paciente narcisista é indispensável a colocação de limites, o estabelecimento da hierarquia e reconhecimento das diferenças entre ele e o outro. A este respeito, trazemos o caso da paciente M, 43 anos (Caso B, também já citada anteriormente) que insiste em chamar a terapeuta de “amiga”, por diversas vezes, no setting, foi colocado que esta relação não é uma interação de amizade e a mesma insistiu em chamá-la desta forma como uma tentativa de burlar a relação hierárquica entre elas.
A construção de uma aliança terapêutica é fundamental, incluindo aquilo que Bion chama de “pessoa real do analista”, pois o terapeuta está servindo como um novo modelo de identificação, que vai oferecer novas formas de enfrentar as angustias, funcionar como continente, e ajudar o paciente a pensar sobre as verdades. O terapeuta deve auxiliar o paciente a realizar uma integração do self, mostrando as conquistas e potencialidades dos pacientes bem como aquilo que é desafio para ele, ou seja, integrar a parte adulta e a parte infantil.
Com sua atividade interpretativa o psicoterapeuta propicia o crescimento mental do paciente. Para isso é necessário que o terapeuta esteja atento para seus próprios aspectos narcisistas, e não formar conluios inconscientes. O já citado paciente do caso A, tentava “seduzir” a terapeuta dizendo, por exemplo, que em sua família havia a prática de procurar sempre os melhores profissionais da cidade, que só se tratavam com pessoas muito competentes. Já a paciente do caso B, afirma que a vida dela é outra depois que se começou a se consultar com a melhor terapeuta da sua vida. Por esses discursos vemos a necessidade do paciente de confirmar para si mesmo sua importância com a ideia de ir ao que ele espera ser “melhor” terapeuta. Ao mesmo tempo comunica sua expectativa de que o profissional se dedique mais ao paciente e atenda suas expectativas. Um misto de reconhecimento, expectativas e autoafirmação, além de exibicionismo.
É muito comum no início do tratamento que o paciente narcisista faça uma idealização necessária do terapeuta, que se transforma no decorrer do processo. Da mesma forma, o paciente gostaria que o terapeuta o idealizasse, pois na logica psíquica essa seria uma garantia de não separação ou abandono.  O terapeuta deve estar atento também as resistências e contra-resistenciais, pois esta é uma indicação sobre o funcionamento do paciente. O terapeuta por vez necessitara ter uma boa capacidade de continência, para tolerar e transformar os sentimentos, tais como, a “fúria narcísica” (Kohut) que surge no decorrer do processo psicoterapêutico. De acordo com Kohut, algumas formas de transferência narcisista: fusional, na qual o paciente espera que o terapeuta adivinhe e dê conta das necessidades dele. O tipo “gemelar”, na qual o paciente espera que o terapeuta seja como ele é, que apoie e confirme suas teses. E a do tipo especular, na qual espera que o terapeuta reconheça sua grandiosidade exibida por ele.
O paciente do caso A costumava apresentar o seguinte padrão: todas as vezes que a terapeuta se afastava por motivo de férias ou algum imprevisto importante que necessitasse desmarcar a consulta, tornava-se comum a ausência na sessão seguinte ao retorno. Uma forma de demonstrar sua ambivalência com o afastamento da terapeuta. Ao mesmo que trazia à tona sua dúvida quanto a seu valor e aceitação, uma ferida primitiva, também precisava sentir-se no controle, e por isso a falta seguinte, para não se sentir tão vulnerável, já que apresentava medo da dependência afetiva. 
Estou com medo de ficar dependente de ti, porque eu não consegui decidir aquilo, eu precisava da tua opinião, e não deu tempo, fiquei com raiva não de ti, mas porque eu queria muito vir... ás vezes eu preciso de ti e tu não estás”. 
Já a paciente do Caso B, ligou para terapeuta enquanto esta estava de férias, para certificasse que a terapeuta estava viva porque, segundo ela, precisava dela viva para continuar vivendo. Por fim, entende-se que os conceitos, a caracterização, bem como as vinhetas clínicas até aqui apresentadas são apenas alguns delineamentos da estrutura narcisista que vão além do que abordado. À guisa de conclusão, sabe-se que um paciente narcisista pode beneficiar-se de uma psicoterapia em que estejam claras as nuances desta estrutura pois, compreende-se que possuir uma dose de narcisismo, gostar-se, ser bom naquilo que faz, mas sem escravizar-se é saudável. Porém, sofrer por conta das próprias exigências, toma outro contorno que se afasta do narcisismo saudável. Como psicoterapeutas, vivencia-se cotidianamente a presença de pacientes com vários níveis de narcisismo e sofrimento, o delineamento do processo terapêutico bem-sucedido com empatia e cuidado pode descortinar o aprisionamento destes pacientes que tiveram seu desenvolvimento reprimido. Acredita-se que é possível vislumbrar um bom prognóstico, quando o gelo intrapsíquico e a angústia interior forem atingidas neste processo e propiciarem o crescimento emocional destes pacientes.
Berlinck, L.C (2008). Melancolia, rastros de dor e de perda. São Paulo: Humanitária, Associação de Acompanhamento Terapêutico, CAP II.
Bleichmar, H (1983) Depressão: um estudo psicanalítico. Porto Alegre: Artes médicas.
Figueiredo, L.C (2003). Psicanálise. Elementos para clínica contemporânea. São Paulo: editora escuta Ltda.
Freud, S (1914). Sobre o Narcisismo: uma introdução. Rio de Janeiro: Imago, 1990.
Lasch, C (1987) O mínimo eu. Sobrevivência Psíquica em tempos difíceis.  São Paulo: editora brasilense.
Mackinnon, R. A; Michels, R; Bucley, P. J (2008) A entrevista Psiquiatrica na prática clínica.  Porto Alegre: artmed
Roudinesco, E. (1999) Por que a Psicanálise? Rio de Janeiro: Jorge Zahar editor
Zimerman, D. E (1999). Fundamentos Psicanalíticos: teoria, técnica e clínica: uma abordagem didática. Porto Alegre: Artmed.
Wanderley , A. A. R (1999).  Narcisismo Contemporâneo: uma abordagem laschiana.  Em: PSYSIS: Revista de Saúde Coletiva.  9 (2),  pp. 31-47.

terça-feira, 14 de maio de 2019

Teoria Psicossocial do Desenvolvimento em Erik Erikson

Teoria Psicossocial do Desenvolvimento em Erik Erikson

Teoria Psicossocial do Desenvolvimento em Erik Erikson
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Erik Erikson propôs uma concepção de desenvolvimento humano em 8 fases (ou estágios) psicossociais, perspectivados, por sua vez, em oito idades que decorrem do nascimento até a morte, pertencendo as quatro primeiras ao período de bebê e de infância, e as três últimas aos anos adultos e à velhice. Cada estágio é atravessado por uma crise psicossocial, sendo uma vertente positiva e uma negativa.
teoria de Erik Erikson dá especial importância ao período da adolescência, notadamente por ser uma transição entre a infância e a idade adulta, onde ocorrem acontecimentos relevantes para a o desenvolvimento da personalidade adulta.
Na Teoria Psicossocial do Desenvolvimento, este se dá em 8 fases e cada fase contribui para a formação da personalidade total (princípio epigenético), sendo, desta forma, todos importantes mesmo depois de se os atravessar.
O núcleo de cada fase/estágio é uma crise básica, que existe não só durante aquele estágio específico, apenas será mais proeminente em cada fase, trazendo raízes prévias dos estágios anteriores e com consequência para os estágios posteriores.
Para Erikson, a formação da identidade inicia-se nos primeiros quatro estágios e o senso desta ocorre na adolescência, evoluindo e influenciando os últimos três estágios.
Erikson perspectivava em sua teoria o desenvolvimento tendo em conta aspectos de cunho biológico, individual e social.
teoria psicossocial em análise enfatizava o conceito de identidade, a qual se forma no 5º estágio, e o de crise que sem possuir um sentido dramático está presente em todas as idades, sendo a forma como é resolvida determinante para a resolução, na vida futura, dos conflitos. 

As 8 Fases do Desenvolvimento Psicossocial em Erik Erickson

1. Confiança  X  Desconfiança  (até um ano de idade)

Durante o primeiro ano de vida a criança é substancialmente dependente das pessoas que cuidam dela, requerendo cuidado quanto à alimentação, higiene, locomoção, aprendizado de palavras e seus significados, bem como estimulação para perceber que existe um mundo em movimento ao seu redor. O amadurecimento ocorrerá de forma equilibrada se a criança sentir que tem segurança e afeto, adquirindo confiança nas pessoas e no mundo. 

2. Autonomia  X  Vergonha e Dúvida   (segundo e terceiro ano)

Neste período a criança passa a ter controle de suas necessidades fisiológicas e responder por sua higiene pessoal, o que dá a ela grande autonomia, confiança e liberdade para tentar novas coisas sem medo de errar. Se, no entanto, for criticada ou ridicularizada desenvolverá vergonha e dúvida quanto a sua capacidade de ser autônoma, provocando uma volta ao estágio anterior, ou seja, a dependência. 

3. Iniciativa  X  Culpa (quarto e quinto ano)

Durante este período a criança passa a perceber as diferenças sexuais, os papéis desempenhados por mulheres e homens na sua cultura (conflito edipiano para Freud) entendendo de forma diferente o mundo que a cerca. Se a sua curiosidade “sexual” e  intelectual, natural, for reprimida e castigada poderá desenvolver sentimento de culpa e diminuir sua iniciativa de explorar novas situações ou de buscar novos conhecimentos.

4. Construtividade  X  Inferioridade (dos 6 aos 11 anos)

Neste período a criança está sendo alfabetizada e frequentando a escola, o que propicia o convívio com pessoas que não são seus familiares, o que exigirá  maior sociabilização, trabalho em conjunto, cooperatividade, e outras habilidades necessárias. Caso tenha dificuldades o próprio grupo irá criticá-la, passando a viver a inferioridade em vez da construtividade. 

5. Identidade  X  Confusão de Papéis (dos 12 aos 18 anos)

O quinto estágio ganha contornos diferentes devido à crise psicossocial que nele acontece, ou seja, Identidade Versus Confusão. Neste contexto o termo crise não possui uma acepção dramática, por  tratar-se de a algo pontual e localizado com pólos positivos e negativos.

6. Intimidade  X  Isolamento (jovem adulto)

Nesse momento o interesse, além de profissional, gravita em torno da construção de relações profundas e duradouras, podendo vivenciar momentos de grande intimidade e entrega afetiva. Caso ocorra uma decepção a tendência será o isolamento temporário ou duradouro. 

7. Produtividade  X  Estagnação  (meia idade)

Pode aparecer uma dedicação à sociedade à sua volta e realização de valiosas contribuições, ou grande preocupação com o conforto físico e material. 

8. Integridade  X  Desesperança (velhice)

Se o envelhecimento ocorre com  sentimento de produtividade e valorização do que foi vivido, sem arrependimentos e lamentações sobre oportunidades perdidas ou erros cometidos haverá integridade e ganhos, do contrário, um sentimento de tempo perdido e a  impossibilidade de começar de novo trará tristeza e desesperança.

Sobre a Autora:

Maria Aparecida Melo Girão - Graduada em Psicologia pela Universidade Estadual do Piauí - UESPI (2011), especialista em Psicopedagogia pela Universidade do Vale do Acaraú (2014), especialista em AEE (Atendimento Educacional Especializado) pelo Instituto de Ensino Superior Múltiplo. Atuou, ainda, como acompanhante terapêutica (2008-2011) junto a crianças com desenvolvimento atípico.
Lecionou as disciplinas de Desenvolvimento Infantil, Inclusão Escolar e Psicologia Clínica Infantil na Universidade Estadual do Piauí – UESPI entre os anos de 2016 e 2018.
Realiza atendimento clínico infantil desde 2011, atuando com diversas demandas, como autismo, TDAH, TDO, Ansiedade, dificuldades de aprendizagem. Além disso trabalha com treinamento parental, orientação de professores, atendimento domiciliar e também com palestras e workshops voltados à atuação do acompanhante terapêutico (AT), professor e pai.

Referências:

ATKISON, Rita L. Introdução à psicologia de Hilgard. 13ª ed. Porto Alegre: Artmed Editora, 2002.
CLONINGER, Susan. Teorias da personalidade. Trad. Claudia Berliner. 1ª ed. São Paulo: Ed. Martins Fontes, 1999.
HALL, Calvin S.; LINDZEY, Gardner; CAMPBELL, John. Teorias da Personalidade. Trad. Maria Adriana Veríssimo Veronese. 4ª ed. Porto Alegre: Artmed Editora. 2000.

domingo, 12 de maio de 2019

A Ética na Atuação do Psicólogo Social em Contexto de Políticas Públicas


A Ética na Atuação do Psicólogo Social em Contexto de Políticas Públicas

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Resumo: Através do presente artigo pretende-se trazer o conceito de ética na visão de alguns filósofos, bem como explanar aspectos históricos da Psicologia Social, e, por fim, fazer uma reflexão acerca das implicações éticas concernentes à atuação do profissional de psicologia no contexto das políticas públicas. Para essa pesquisa foi utilizado método dedutivo através de revisão bibliográfica de artigos. Diante das discussões sobre ética, esse artigo se faz relevante a partir do momento em que essas discussões trazem alguns questionamentos do fazer ético enquanto profissional de Psicologia diante de situações nas quais tenham que tomar decisões que podem comprometer o outro ou a si mesmo. E no contexto que envolve as Políticas Públicas, que é onde ele pode se deparar com maior frequência com o dilema ético, pois por envolver políticas, na maioria das vezes, são indicados para ocuparem tais cargos e com isso poderá se ver tendo que escolher entre sua ética ou correr o risco de perder seu emprego.
Palavras-chave:Ética, Política,Políticas Públicas, Psicologia.

1. Introdução

Assim como várias outras áreas de atuação profissional, e principalmente por ser uma profissão relativamente recente no Brasil, a Psicologia se depara com conflitos éticos em diversos contextos. Um dos contextos em que isso se apresenta é a Psicologia Social, tantas vezes vinculada ao trabalho em instituições de políticas públicas.
Enquanto ações governamentais que influenciam diretamente na vida da sociedade, as políticas públicas estão colocadas dentro da área de interesse da Psicologia Social. Apesar disso, a Psicologia não se insere nesse espaço com um posicionamento político partidário, antes deve estar atrelada sempre à suas bases teóricas e éticas.
O caráter político da Psicologia, no sentido do seu alcance e espaço de fala, é inegável e se reafirma inclusive no compromisso social assumido no Código de Ética Profissional de Psicologia (CFP, 2005). No entanto, o entendimento dos limites e bases do comprometimento profissional nos contextos de políticas públicas dão margem a dubiedades. Por esse motivo, o presente trabalho objetiva esclarecer como se dá a prática da Psicologia de forma ética no contexto social de Políticas Públicas.
Para se aprofundar de modo mais específico nesta reflexão, inicialmente se apresentará uma exposição de conceitos de ética em bases filosóficas. Em seguida, é feito uma explanação histórica de como a Psicologia Social vem se desenvolvendo enquanto área de atuação profissional. Por fim, é apresentado o espaço da ética na atuação do psicólogo social no contexto de políticas públicas e como isto se efetiva.

2. Ética na Visão Filosófica

Para elaborarmos um trabalho sobre a ética na psicologia social, entende-se necessário primeiro trazer o conceito do que seria ética na visão de alguns especialistas no assunto. Ética vem do grego “ethos” que significa modo de ser; “conjunto de valores que orientam o comportamento do homem em relação aos outros homens na sociedade em que vive, garantindo, igualmente, o bem-estar social”, ou seja, Ética é a forma que o homem deve se comportar no seu meio social (DECHICHI, 2015).
A ética vem sendo discutida em vários conceitos que, por sinal, acabam sendo muito complexos, pois cada indivíduo traz consigo construções que irão definir sua moral. Osfilósofos gregos aprofundaram seus estudos sobre o assunto e cada pensador definiu de maneira diferente o que seria ética (VAZ, 2014).
Platão propõe uma ética transcendente, dado que o fundamento de sua proposta ética não é a realidade empírica do mundo, nem mesmo as condutas humanas ou as relações humanas, mas sim o mundo inteligível. O filósofo centra suas indagações na ideia perfeita, boa e justa que organiza a sociedade e dirige a conduta humana. As ideias formam a realidade platônica e são os modelos segundo os quais os homens têm seus valores, leis, moral. Conforme o conhecimento das ideias, das essências, o homem obtém os princípios éticos que governam o mundo social (VAZ, 2014).
O uso reto da razão é entendido como o meio de alcançar os valores verdadeiros que devem ser seguidos pelos homens. No mito da caverna, o filósofo expõe a condição de ignorância na qual se encontra o homem ao lidar com o conhecimento das aparências. Somente pelo conhecimento racional o homem pode elevar-se até as Ideias, até o Ser e conhecer a verdade das coisas. Isto se dá através do método dialético, o qual elimina as aparências e encontra as essências, a verdade, no conhecimento das coisas. Este método filosófico tem por finalidade libertar os homens da ignorância e levá-los ao conhecimento de ideia em ideia, até alcançar o conhecimento da Ideia Suprema: o Bem. As outras ideias participam desta e deve sua existência a esta (VAZ, 2014).
A alma humana – de suma relevância para a ética platônica - é tripartite, isto é, forma- se pela inteligência, pela irascibilidade e pela concupiscência. Tal como as partes da cidade ideal, cada uma das partes da alma possui suas funções específicas que não podem ser exercidas por nenhuma das outras partes. Cada uma das partes da cidade e, por analogia, cada uma das partes da alma, possui uma função própria a qual pode ser executada com excelência ou não, e, ao executá-la com excelência, sua virtude própria é exercida.
A ética aristotélica, em oposição à ética de seu mestre, é imanente, tendo suas bases na realidade empírica do mundo, no questionamento acerca das condutas humanas e na organização social. As exigências com relação à vida na polis e a realidade do homem, formam o conteúdo das ideias e são ambas as responsáveis pela escolha dos valores, pela moralidade e pelas leis, pela definição das condutas dos homens. Sua teoria ética era realista, empirista em contrapartida à visão idealista e racionalista de Platão (VAZ, 2014).
De acordo com essa ética, ela inicia-se com o estabelecimento da noção de felicidade. Neste sentido, pode ser considerada eudemonista por buscar o que é o bem agir em escala humana, o agir segundo a virtude – diferentemente de Platão, que buscava a essência das ideias de felicidade e da ideia do Bem sem relacioná-las diretamente à prática. A felicidade é definida como uma certa atividade da alma que vai de acordo com uma perfeita virtude. Partindo dessa definição, faz-se necessário um estudo sobre o que é uma virtude perfeita e, assim, faz-se necessário, também, o estudo da natureza da virtude moral (VAZ, 2014).
Aristóteles acreditava que o governo tem várias formas nas quais foram permitidas que os homens na sociedade tivessem uma vida melhor. Para ele, “o homem é um animal político”, ou seja, o homem só realiza sua natureza quando envolvido na vida da polis. A política constitui, ao lado da ética, dentro do sistema aristotélico, o “saber prático”, pois o objetivo de ambas não é o conhecimento de uma realidade – como no caso da física, astronomia, ciências biológicas e psicologia, que constituem o “saber teórico”. Segundo esse filósofo, ética e política não poderiam ser pensadas separadamente, pois enquanto a ética busca o bem-estar individual, a política busca o bem comum (SANTOS, 2018).
“Toda arte e todo saber, assim como tudo que fazemos e escolhemos, parece visar algum bem. Por isso, foi dito, com razão, que o bem é aquilo a que todas as coisas tendem, Mas há uma diferença entre os fins: alguns são atividades, ao passo que outros são produtos à parte das atividades que os produzem.” (Aristóteles, , 1094a).
De acordo com o filósofo, a felicidade não é prazer físico, mas harmonizar a mente com a virtude. O melhor para a maioria é a virtude. As partes intelectuais e emocionais da mente criam tipos intelectuais e morais da virtude. Esta virtude é expressa a partir da mente através da ação voluntária (AZEVEDO, 2017).
Contudo, ele propõe escolher a “áurea” entre muita emoção e muita ação. Coragem é virtuosa  quando se equilibra entre a covardia e temeridade, extravagância e indiferença. Justiça ocorre quando cada pessoa recebe o que merece. Qualquer desvio da média é injustiça (AZEVEDO, 2017).
Com isso ele afirma que uma vida de felicidade última e realização é uma vida de contemplação solitária. No entanto, ele sugere que este estado de ser, não pode ser realizado por meros mortais. Argumenta que a maior felicidade pode ser alcançada seguindo os valores morais para viver uma vida agitada na política e esplendor público (AZEVEDO, 2017).
Contrapondo a esses dois filósofos, Kant traz uma ética mais voltada para moral, salientando que a visão de que ações corretas são aquelas ações que não são instigadas por impulsos ou desejos, mas pela razão práticaA ação é considerada correta se for empreendida por uma questão de cumprir o seu dever, e cumprir o dever significa agir de acordo com certas leis morais ou “imperativos” (AZEVEDO, 2017).
Para nos ajudar a identificar aquelas leis que são moralmente obrigatórias, Kant forneceu-nos o cálculo final: o imperativo categórico que afirma: “Aja apenas de acordo com a máxima que você pode querer que se torne uma lei universal”. Para o imperativo categórico, Kant oferece um aditamento que se refere especificamente à vontade humana; “Assim, aja para que você use a humanidade, seja em sua própria pessoa ou na pessoa de outro, sempre como um fim, não apenas como um meio” (AZEVEDO, 2017).
A busca por explicar o que seria ética nos leva a compreensão que, de certa forma, todos acreditavam que o sentido final da mesma era buscar uma situação em que a felicidade fosse o final de toda essa busca. Diante disso, o fazer ético do profissional de psicologia nos leva a compreender que o profissional está sempre buscando a melhoria do indivíduo, respeitando-o e encaminhando para uma melhor condição de vida dentro daquilo que acredita, juntamente com indivíduo ser o melhor para si. Para tanto se faz necessária uma postura ética, não só como profissional, mas também como pessoa, afinal não se pode desvincular uma coisa da outra, e, de acordo com CHAUI (2000) não se pode ter fins éticos se os meios não forem éticos.
Ética é um assunto que perpassa por gerações, culturas etc., e, cada passagem é sinônimo de modificações nos seus conceitos. Diante disso entende-se necessário contextualizar a história da ética, bem como os conceitos de alguns filósofos gregos até chegar nos dias atuais. Primeiramente, para entendermos sobre a ética, devemos iniciar pelo conceito filosófico. É necessário entender que é a área que investiga o comportamento humano em suas relações entre si, considerando conceitos utilizados para avaliá-las como: valor, virtude, justiça, moral, bem, normas morais, dever, liberdade e responsabilidade. Promove também reflexões sobre a busca humana pelas melhores formas de agir, viver e conviver. De forma mais específica, segundo Cotrim (2004, p. 264).
Como teoria filosófica, a ética se caracteriza como estudo das ações individuais dos homens, cuja finalidade consiste em elaborar uma orientação normativa para as ações humanas que seja estabelecida como bem. Com o filósofo grego Aristóteles a ética passou a ser a “ciência do moral”, ou seja, do caráter e das disposições do espírito. É destacado que a ética é um conjunto de argumentos que são utilizados pelos indivíduos para justificar suas ações, solucionando com diferentes problemas em que há o conflito de interesses com bases em argumentos universais (SANTOS 2013).
A ética é uma disciplina teórica sobre uma prática humana, que é o comportamento moral... A ética tem também preocupações práticas. Ela orienta-se pelo desejo de unir o saber ao fazer. Como filosofia prática, isto é, disciplina teórica com preocupações práticas, a ética busca aplicar o conhecimento sobre o ser para construir aquilo que deve ser (SANTOS, 2013).
A sociedade nos impõe padrões e para podermos conviver harmonicamente é necessário que sigamos alguns paradigmas atuais. Dependendo de nossas decisões e ações traremos conosco o questionamento acerca do que seria ético ou não para nós e para outro, partindo do pressuposto que não existe ética sem o contato com o outro. Em outras palavras, para sermos éticos não só temos que estarmos satisfeitos com nossas decisões, mas também fazermos uma reflexão de que forma essas decisões foram prejudiciais ou não ao outro, onde através disso chegaremos a uma moral.
O aspecto ético, fundamental no fazer profissional, deve ser considerado em sua relação com a psicologia em um contexto de atualidade. De acordo com Silva (2008), a globalização e consequente evolução científica e tecnológica, associadas à restrição de acesso de alguns grupos a estas possibilidades, favorece o estabelecimento de um cenário social de desigualdade que fomenta violência e miséria. Nesta relação:
Todas estas transformações da sociedade contemporânea colocam vários desafios para a psicologia social na atualidade. Talvez um dos principais desafios seja a necessidade de se estar constantemente reinventando novos modos de produção de conhecimento em função da própria complexidade das questões às quais nos vemos confrontados (SILVA, 2008, p.39).
Para Silva (2008), a Psicologia Social estuda como é produzida a experiência subjetiva e, de acordo com as constantes mudanças neste objeto de estudo, as áreas de estudo devem se atentar para isto e buscar adequações que condizem com a função política que também lhes cabe. Estas adequações podem refletir numa atuação profissional embasada em relações de criação ou de alienação.
Na busca da Psicologia social por novas estratégias de conhecimento condizentes à contemporaneidade, traz-se uma nova roupagem para essa figura, não como um parâmetro de estabelecimento de verdade, mas como busca de entendimento dos modos de captura da subjetividade e das principais formas de subjetivação vigentes. Seu enfoque está em desconstruir dicotomias e reconstruir o entendimento a respeito dos objetos de estudo (SILVA, 2008).
Além dos princípios gerais que norteiam o bom funcionamento social, existe também  a ética de determinados grupos ou locais específicos. Neste sentido, é possível citar: ética médica, ética profissional, ética empresarial, ética educacional, ética nos esportes, ética jornalística, ética na política, etc.
Como toda profissão regulamentada, a psicologia também dispõe de um código que, de certa forma, regulamenta o fazer ético do profissional. Para trazer a importância da ética no exercício da psicologia faz-se necessário salientar que o indivíduo, em todos os seus contextos, é a principal ferramenta de estudo da psicologia. Sendo assim, o respeito a tal ferramenta, tão importante para desenvolver um bom trabalho, é de suma importância. Logo nos seus primeiros três princípios fundamentais, o Código de Ética relata que:
  1. O psicólogo baseará o seu trabalho no respeito e na promoção da liberdade, da dignidade, da igualdade e da integridade do ser humano, apoiado nos valores que embasam a Declaração Universal dos Direitos Humanos.
  2. O psicólogo trabalhará visando promover a saúde e a qualidade de vida das pessoas e das coletividades e contribuirá para a eliminação de quaisquer formas de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão.
  3. O psicólogo atuará com responsabilidade social, analisando crítica e historicamente a realidade política, econômica, social e cultural (CFP, 2005).

Diante desses preceitos, é importante salientar que ser ético vai muito além do que está escrito num código. O profissional trará consigo construções e experiências próprias que não podem ser separados do seu fazer profissional, pois é através de suas decisões e reflexões que ele embasará seu trabalho de uma forma imparcial, dando prioridade ao indivíduo como todo.
A psicologia como uma ciência que possui diversas vertentes, utiliza desse pressupostos teóricos no seu fazer ético, no qual nosso principal foco neste artigo será a ética na psicologia social.

3. Desenvolvimento Histórico da Psicologia Social Enquanto Área de Atuação Profissional

A psicologia social surge basicamente no final do século XIX, tendo como principal precursor o filósofo francês Augusto Conte, considerado o pai dessa ciência. Para Conte, a Psicologia Social seria um subproduto da Sociologia e da Moral, sendo encarregada em dizer como o indivíduo poderia ser, ao mesmo tempo, causa e consequência da sociedade. No entanto, só após a Primeira Guerra Mundial, por volta de 1920, é que esse ramo se desenvolveria como estudo científico e sistemático. Num mundo abalado por crises e conflitos, os pesquisadores encontraram um campo a ser amplamente estudado, visando descobrir uma maneira de preservar os valores de liberdade e os direitos humanos numa sociedade tensa e arregimentada.
Os cientistas daquela época buscavam entender diversos fenômenos sociais como a liderança, preconceito, propaganda, conflitos de valores e como os indivíduos secomportavam frente a estes. Nos EUA, essas pesquisas tinham o intuito de procurar formas de melhorar a vida do homem no contexto social, utilizando para isso os dados e conceitos de anos de pesquisas na psicologia. A sociedade era o grande objeto de estudo nessa época, suas motivações, atitudes frente à determinadas situações, padrões de comportamento, enfim, tudo que demonstrasse a dicotomia existente entre o ser e a sociedade. Por mais que um não exista sem o outro, são dois fenômenos diferentes.
No entanto, quando nos debruçamos em sua breve história, a Psicologia Social tem se caracterizado pela pluralidade e multiplicidade de abordagens teóricas adotadas como referenciais legítimos à produção de conhecimentos sociopsicológicos. Tal contexto tem dificultado sobremaneira a delimitação do objeto de estudo ou mesmo dos vários objetos de estudo dessa disciplina. Contudo, o binômio indivíduo-sociedade, isto é, o estudo das relações que os indivíduos mantêm entre si e com a sua sociedade ou cultura, sempre esteve no centro das preocupações dos psicólogos sociais, com o pêndulo oscilando ora para um lado, ora para o outro (FERREIRA, 2010).
Assim é que, em seus primórdios, a Psicologia Social adotou uma abordagem eminentemente molar, dedicando-se prioritariamente ao estudo dos processos socioculturais e concebendo o indivíduo como integrante desse sistema. Com o passar do tempo, porém, ela foi progressivamente adotando níveis mais moleculares de análise e se tornando mais individualista, ao se focalizar cada vez mais na investigação de processos interindividuais. Em reação a tal individualização, a Psicologia Social irá assistir a outras mudanças de rumo, responsáveis pelo desenvolvimento de abordagens que se voltam novamente para a análise de eventos e processos histórica e culturalmente situados e dinâmicos (FERREIRA, 2010).
A ênfase maior dada ao indivíduo ou à sociedade fez com que diferentes autores começassem a defender a existência de duas modalidades de Psicologia Social: a Psicologia Social Psicológica e a Psicologia Social Sociológica. A Psicologia Social Psicológica, segundo a definição de G. Allport (1954), que se tornou clássica, procura explicar os sentimentos, pensamentos e comportamentos do indivíduo na presença real ou imaginada de outras pessoas (FERREIRA, 2010).
Já a Psicologia Social Sociológica, segundo Stephan e Stephan (1985), tem como foco o estudo da experiência social que o indivíduo adquire a partir de sua participação nos diferentes grupos sociais com os quais convive. Em outras palavras, os psicólogos sociais da primeira vertente tendem a enfatizar principalmente os processos interindividuais responsáveis pelo modo pelo qual os indivíduos respondem aos estímulos sociais, enquanto os últimos tendem a privilegiar os fenômenos que emergem dos diferentes grupos e sociedades (FERREIRA, 2010).
Para além dessa já hoje clássica divisão, a Psicologia Social desdobrou-se, mais recentemente, em outra vertente, qual seja a Psicologia Social Crítica (Álvaro & Garrido, 2006) ou Psicologia Social Histórico-Crítica (Mancebo & Jacó-Vilela, 2004), expressões que abarcam, na realidade, diferentes posturas teóricas. Assim é que, de acordo com Hepburn (2003), tanto o Socioconstrucionismo (Gergen, 1997) e a Psicologia Discursiva (Potter & Wetherell, 1987), como a Psicologia Marxista, o pós-modernismo e o feminismo, entre outros, contribuem atualmente para o campo da Psicologia Social Crítica (FERREIRA, 2010).
Tais perspectivas guardam em comum o fato de adotarem uma postura crítica em relação às instituições, organizações e práticas da sociedade atual, bem como do conhecimento até então produzido pela Psicologia Social a esse respeito. Nesse sentido, colocam-se contra a opressão e a exploração presentes na maioria das sociedades e têm como um de seus principais objetivos a promoção da mudança social como forma de garantir o bem-estar do ser humano (HEPBURN, 2003).
A evolução da Psicologia Social nas diferentes partes de mundo vem ocorrendo, de certa forma, associada às várias modalidades ou vertentes da disciplina. Assim é que, na América do Norte, e mais especialmente nos Estados Unidos da América, a Psicologia Social Psicológica foi e continua sendo a tendência predominante. Já na Europa, é possível se notar uma preocupação maior com os processos grupais e socioculturais, que sempre estiveram na base das preocupações da Psicologia Social Sociológica. Por outro lado, na América Latina, verifica-se a adoção da Psicologia Social Crítica como abordagem preferencial à análise dos graves problemas sociais que costumam assolar a região (HEPBURN, 2003).
Farr (2010) faz uma análise importante sobre o desenvolvimento da história da Psicologia Social cindida na tradição europeia sociológica e americana psicológica. O autor mostra em seu livro "As raízes da psicologia social moderna" como a história da psicologia social está ligada de forma direta aos acontecimentos históricos e políticos da sociedade, principalmente relacionados às grandes guerras mundiais. Ele aponta que, com a migração de psicólogos austríacos e alemães, seguidores da corrente gestaltistas, para a América deu-se o conflito entre a Fenomenologia e o Positivismo, entre o Behaviorismo e a Gestalt, o que gerou a psicologia social cognitivista americana.
E com isso ele mostra que é deste conflito que Allport relacionou as raízes da psicologia social à Europa e suas flores ao solo americano (FLORES, 2014).
Fenomenologia - No pensamento setecentista, descrição filosófica dos fenômenos, em sua natureza aparente e ilusória, manifestados na experiência aos sentidos humanos e à consciência imediata.
Positivismo - sistema criado por Auguste Comte 1798-1857 que se propõe a ordenar as ciências experimentais, considerando-as o modelo por excelência do conhecimento humano, em detrimento das especulações metafísicas ou teológicas; comtismo.
Behaviorismo - teoria e método de investigação psicológica que procura examinar do modo mais objetivo o comportamento humano e dos animais, com ênfase nos fatos objetivos (estímulos e reações), sem fazer recurso à introspecção.
Com isso, Farr (2010) faz crítica à maneira como Allport e Jones, estudiosos da história da psicologia, trataram a história da psicologia social de maneira substancialmente positivista, dividindo sua composição epistemológica da experimental. Ou seja, de um lado os autores colocaram a tradição Europeia metafísica, trazida da fenomenologia, e de outro o aspecto experimental americano, proveniente do behaviorismo (FLORES, 2014).
Outro traço da filosofia positivista contida na explicação de Allport, segundo Farr (2010), se encontra na colocação de August Comte, filósofo conhecido como pai do positivismo, no lugar de fundador da psicologia social, com o intuito de defendê-la como ciência. Neste sentido, tanto Allport, quanto Jones veem a psicologia social sociológica de maneira menos científica do que a psicologia social produzida pela América do Norte, especificamente nos Estados Unidos (FLORES, 2014).
Pode-se pensar que Allport, ao declarar Comte o fundador da psicologia social, cometeu o que Goodwin (2005) chamou maneira Personalística de investigar a história, que vê nos atos dos personagens históricos a fonte de compreensão para a história. Farr (2010) destaca o risco de determinar nomes de fundadores e/ou ancestrais para explicar a origem das ciências, pois isto pode impregnar a história com a visão de um ou outro autor (FLORES, 2014).
Também é importante considerar que o interesse e a posição teórica de um estudioso da história da psicologia podem provocar interpretações errôneas sobre as intenções conceituais e teóricas de um autor. Este é o caso do que cometeu Boring com Wundt. Conforme Abib (2009), a história que mais se conhece sobre Wundt é que ele foi o fundador da psicologia como ciência a partir do estabelecimento do laboratório em Leipzig. Contudo, ficou desconhecido na história da psicologia e em seus manuais, o posicionamento de Wundt sobre a psicologia como uma área intermediária entre a fisiologia e a cultura:
Uma prova adicional dessa dualidade encontra-se na diferença que o psicólogo alemão faz entre a psicologia cultural (Völkerpsychologie) e a psicologia fisiológica e experimental. A psicologia cultural investiga os processos mais complexos da mente, como linguagem, mito, religião, arte, sociedade, lei, cultura e história [...]. E a psicologia fisiológica e experimental investiga os processos mais simples da mente, como sensação, percepção e processos afetivos [...]. A psicologia cultural  não pode ser reduzida à psicologia fisiológica e experimental, nem os processos mentais complexos podem ser reduzidos a processos mentais mais simples (ABIB, 2009, p. 201).
Abib (2009) aponta que, devido a interesses políticos e ideológicos do nazismo, existiu na psicologia a necessidade de valorizar os estudos de controle e seleção, o que se opunha à proposta de Wundt. No entanto, não era só este fator que levou à desconsideração da psicologia social de Wundt, mas também a forte corrente positivista da época com a qual esse autor não concordava, pois não admitia que os processos mentais mais profundos fossem estudados de maneira experimental. Farr (2010) mostra que Wundt havia elencado três tarefas para sua vida: criar uma psicologia experimental, uma metafísica científica e uma psicologia social. Segundo Farr (2010) os historiadores da psicologia ignoram a contribuição de Wundt sobre as questões sociais. Abib (2009) afirma que:
O projeto de Wundt foi derrotado, não só na esfera dos interesses intelectuais ligados à prática e da ideologia do controle social, mas também no campo da metafísica elementarista, da epistemologia unitária e das condições da instituição acadêmica alemã (2009, p. 205).
A forte tradição positivista separou os objetos de pesquisa com os quais a psicologia poderia lidar e também definiu como essa ciência poderia trabalhar com seus objetos de estudo que, claramente, deveria se restringir às pesquisas experimentais. É neste contexto que se pode observar a separação entre uma psicologia que se dedicaria aos processos psicológicos elementares de uma psicologia que se voltaria ao estudo das relações entre sujeito, sociedade e cultura, e, de que forma o profissional de Psicologia utiliza seu fazer ético, principalmente no que diz respeito a atuação no contexto das políticas públicas, onde a Psicologia social e mais desenvolvida (LOPES, 2014).

4. O Espaço da Ética na Atuação do Psicólogo Social em Contexto de Políticas Públicas

 O aspecto ético, fundamental no fazer profissional, deve ser considerado em sua relação com a psicologia em um contexto de atualidade. De acordo com Silva (2008), a globalização e consequente evolução científica e tecnológica, associadas à restrição de acesso de alguns grupos a estas possibilidades, favorece o estabelecimento de um cenário social de desigualdade que fomenta violência e miséria. Nesta relação:
Todas estas transformações da sociedade contemporânea colocam vários desafios para a psicologia social na atualidade. Talvez um dos principais desafios seja a necessidade de se estar constantemente reinventando novos modos de produção de conhecimento em função da própria complexidade das questões às quais nos vemos confrontados (SILVA, 2008, p.39).
Para Silva (2008), a Psicologia Social estuda como é produzida a experiência subjetiva e, de acordo com as constantes mudanças neste objeto de estudo, as áreas de estudo devem se atentar para isto e buscarem adequações que condigam com a função política que também  lhes cabe. Estas adequações podem refletir em atuação profissional embasada em relações de criação ou de alienação.
Na busca da Psicologia social por novas estratégias de conhecimento condizentes à contemporaneidade, o novo paradigma ético-estético figura não como um parâmetro de estabelecimento de verdade, mas como busca de entendimento dos modos de captura da subjetividade e das principais formas de subjetivação vigentes. Seu enfoque está em desconstruir dicotomias e reconstruir o entendimento a respeito dos objetos de estudo (SILVA, 2008).
Nas últimas décadas é possível observar a crescente inserção dos profissionais de psicologia em demandas do serviço público, o que faz com que a profissão esteja a serviço de um público de menor favorecimento socioeconômico. Este cenário propicia que a Psicologia seja retirada de um local de alienação quanto à realidade histórica e política na qual se encaixa (ANDRADE E MORATO, 2004).
Como um entendimento recente, a atuação profissional consciente sobre o seu espaço social dá margem a dubiedades. Para Andrade e Morato (2004), estas questões se situam especialmente sobre a Psicologia Social, uma área emergente e que ainda é tratada de forma marginalizada. Neste contexto se destaca a consciência da repercussão social do fazer profissional e o compromisso desta atuação com as populações excluídas.
Para Andrade e Morato (2004), o envolvimento social e consciência política, associados a questões profissionais como a multiplicidade de teorias e abordagens psicológicas, coloca a Psicologia de frente com os aspectos éticos. Neste contexto, se torna necessário o questionamento para a compreensão de onde se situa a neutralidade científica do psicólogo mediante a consciência da realidade na qual sua atuação está inserida.
O Código de Ética Profissional do Psicólogo (2005) é uma reformulação e destaca o interesse em fazer jus às evoluções no contexto e, com isso, elevar a contribuição social da profissão. Deste modo, é possível perceber que o amadurecimento da profissão caminha no sentido de abrangência do contexto e acolhimento de demandas que dele afloram.
Andrade e Morato (2004) pontuam que, entre os entraves atuais da prática da Psicologia Social está a necessidade do psicólogo se desprender dos títulos para se encaixar na posição de mediação. No âmbito das instituições, o psicólogo deve entender a atuação de efeitos comunitários não apenas com base no alcance quantitativo do grupo, mas também não deve se ater aos aspectos socioeconômicos e culturais.
Benevides (2005) destaca a falta de materiais de pesquisa que respaldam a atuação dos psicólogos em assistência de políticas públicas. É indicado como um fator relacionado o enfoque que historicamente a Psicologia dá ao sujeito, em detrimento de questões sociais, colocadas em segundo plano na atuação profissional, com base no discurso de distanciamento entre política e psicologia.
O posicionamento no sentido de promover maior responsabilidade social na profissão, por vezes foi colocada como militância injustificada e indevida. “Assim é que não causa espanto, entre muitos, a afirmação de que Psicologia e Política não se misturam, ou, de que, quando somos psicólogos não somos militantes e se somos militantes não devemos sê-lo enquanto psicólogos” (BENEVIDES, 2005, p.22).

4.1 Ética e Humanização da Psicologia em Políticas Públicas de Atenção à Saúde

Apesar da tentativa de despolitização da profissão, é necessário considerar as interfaces que surgem, especialmente na atuação no Sistema Único de Saúde (SUS). Embora não se desprendam do arcabouço teórico que subsidia o fazer psicológico, tais reflexões são de caráter ético-político sobre o que diz respeito ao campo de intervenção do psicólogo (BENEVIDES, 2005).
Ao destacar o contexto de saúde pública, Benevides (2005) ressalta os eixos norteadores da política do SUS: universalidade, equidade e integralidade, também comoresponsabilidade do psicólogo. Tal participação deve ser positiva no entrelace entre princípios essenciais como de inseparabilidade entre a experiência coletiva e os aspectos individuais, de transversalidade em diálogo com outros saberes e corresponsabilidade e autonomia buscando a produção de autonomia nos sujeitos envolvidos.
Fortes (2004) fala de ética em uma íntima ligação com a humanização do serviço, pelo entendimento de que ambas contribuem para uma coesão social. Tal humanização preconiza a atenção à saúde de modo a respeitar particularidades nas necessidades e buscando, enquanto possível, manter a autonomia de cada indivíduo atendido exercer suas vontades.
A humanização abarca o sujeito de modo mais amplo que apenas o aspecto biológico, pois considera demais fatores do contexto de saúde, a exemplo de questões éticas, sociais, relacionais e psíquicas. Deste modo, é possível perceber que a Psicologia de forma ética se alinha muito bem com este entendimento, pois:
Humanizar refere-se à possibilidade de uma transformação cultural da gestão e das práticas desenvolvidas nas instituições de saúde, assumindo uma postura ética de respeito ao outro, de acolhimento do desconhecido, de respeito ao usuário entendido como um cidadão e não apenas como um consumidor de serviços de saúde (FORTES, 2004, p.2).

5. Considerações Finais

Assim como tantas outras profissões, a Psicologia tem a necessidade de andar atrelada com valores éticos. Para tanto, é de fundamental importância que os que se dispõem a exercer a profissão conheçam a respeito e se comprometam com isto. No entanto, é preciso considerar que a Ética pode ser concebida com base em diferentes perspectivas filosóficas e que esta é apenas a primeira das ambiguidades possíveis neste contexto.
Outra questão que diz respeito especialmente à Psicologia, é a multiplicidade de abordagens teóricas que dá margem à diferentes interpretações de conceitos que dizem respeito a todas elas. A ética é um destes conceitos e é por isso que o Código de Ética Profissional de Psicologia assume um papel tão relevante, ao estabelecer um parâmetro em comum que subsidie todas estas perspectivas de modo razoável.
Ao pensar a ética na Psicologia Social é preciso considerar como esta área de atuação vem se desenvolvendo ao longo dos anos e o tanto que ainda é necessário que se desenvolva. Apesar dos avanços e da ampliação da atuação profissional de psicólogos neste âmbito, ainda há muito que se produzir em pesquisa científica a respeito, o que pode ser percebido pela limitação nos materiais encontrados para desenvolver o presente artigo.
No que diz respeito à atuação em políticas públicas, as questões éticas são questionadas desde o senso comum, partindo do ponto em que se questiona a ética no funcionalismo público de modo geral. É necessário entender que a Psicologia não está alheia a esta visão ainda pejorativa que ainda existe sobre tal tipo de vínculo profissional e, deste modo, compreender a importância e tecer o fazer profissional com perícia e ética neste meio.
Mostra-se muito coerente o enfoque especial na atenção à saúde, por ser esta uma área específica de políticas públicas que abre grande parte das portas à Psicologia Social no Brasil. Este foco permite ver de perto o quanto que a ética está vinculada a outros conceitos tão falados nesta área de conhecimento, como é o caso da humanização, tão debatida como forma de diminuição de discriminação e concepção fundamental à atuação em Psicologia.
Dispor-se a escrever sobre a Ética em Psicologia Social acabou se mostrando uma experiência muito positiva por permitir o contato com a profissão em reflexões que dizem muito sobre a atuação futura. Não se deve esquecer da importância do contato com as facetas que a profissão vem assumindo ao longo dos anos e de como vem se distanciando das amarras de uma atuação elitista e restrita ao ambiente clínico.
Ao falar de Políticas Públicas e buscar mostrar a necessidade de um compromisso de responsabilidade social da profissão, é necessária a disposição a contestar certos entendimentos ainda reproduzidos sobre um distanciamento entre a Psicologia e a política. Faz-se necessário entender certas ambiguidades que se apresentam ao profissional e que exigem dele um entendimento para além do entendimento acadêmico de modo padronizado e restrito. É pela ampliação destes horizontes que este trabalho se legitima e busca encorajar outros semelhantes, em função de uma Psicologia Ética e representativa na prática dos valores que teoriz

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